Álcool e câncer: o detalhe sobre "doses pequenas" que quase ninguém conhece

 


Autoridades de saúde reforçam que o álcool é causa comprovada de pelo menos sete tipos de câncer. O risco começa no consumo leve e cresce a cada dose.

A cerveja do fim de semana e a taça de vinho no jantar parecem hábitos inofensivos. Para o risco de câncer, porém, não existe uma quantidade de álcool considerada segura. O risco começa no consumo leve e aumenta junto com a quantidade.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) chegou a essa conclusão em janeiro de 2023. Em janeiro de 2025, o cirurgião-geral dos Estados Unidos, principal autoridade de saúde pública do país, publicou um alerta oficial sobre o tema. Nos EUA, o álcool é a terceira maior causa evitável de câncer, atrás apenas do cigarro e da obesidade. Segundo o alerta, ele está ligado a cerca de 100 mil casos e 20 mil mortes por câncer por ano no país.

Uma relação conhecida há décadas

A ligação entre bebida e câncer não é nova. A Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC), órgão da OMS, classificou as bebidas alcoólicas no Grupo 1 em 1988. É a mesma categoria do tabaco e do amianto, usada quando há provas suficientes de que uma substância causa câncer em humanos. As revisões seguintes, incluindo a de 2012, mantiveram essa classificação.

Estar no mesmo grupo do cigarro não significa que beber seja tão perigoso quanto fumar. Significa que a relação de causa está tão bem comprovada quanto a do tabaco.

Os estudos confirmam que o álcool causa câncer em sete regiões do corpo:

  • boca;
  • faringe (garganta);
  • laringe;
  • esôfago;
  • fígado;
  • intestino (cólon e reto);
  • mama.

Há ainda associação entre consumo pesado e prolongado e câncer de pâncreas.

O que "pouca quantidade" significa na prática

O problema não se limita a quem bebe muito. A OMS analisou dados da Europa e concluiu que metade dos cânceres causados pelo álcool na região vem de consumo leve ou moderado. Isso equivale a menos de 1,5 litro de vinho ou 3,5 litros de cerveja por semana.

Um estudo publicado na revista The Lancet Oncology em 2021 estimou que o álcool esteve por trás de 741 mil novos casos de câncer no mundo em 2020. Isso representa cerca de 4% de todos os diagnósticos daquele ano. Mais de 100 mil desses casos foram atribuídos a quem bebia o equivalente a até duas doses por dia.

O câncer de mama mostra bem esse efeito. Grandes análises indicam que o risco sobe cerca de 7% a cada 10 gramas de álcool por dia, menos do que uma lata de cerveja. Ou seja, até o consumo diário pequeno aumenta o risco.

Como o álcool agride as células

O álcool é transformado no fígado em acetaldeído, uma substância tóxica que também é classificada como cancerígena. O acetaldeído se liga ao DNA e causa erros quando as células se dividem. Esses erros podem dar origem a um tumor.

Algumas pessoas, principalmente de origem asiática, têm uma variação genética que dificulta eliminar o acetaldeído. Nelas, o rosto fica vermelho logo depois de beber. Esse grupo tem risco ainda maior de câncer de esôfago.

O alerta americano de 2025 aponta outros três caminhos, além do acetaldeído:

  • Estresse oxidativo e inflamação. O metabolismo do álcool produz radicais livres, moléculas que danificam o DNA, as proteínas e as gorduras das células.
  • Alterações hormonais. O álcool eleva os níveis de estrogênio, ligado ao câncer de mama. Também reduz a vitamina A, que ajuda a regular esse hormônio.
  • Porta de entrada para outras substâncias. O álcool funciona como um solvente, que facilita a entrada de substâncias cancerígenas nos tecidos da boca e da garganta.

Beber e fumar: um risco que se multiplica

O último mecanismo explica por que beber e fumar ao mesmo tempo é especialmente perigoso. O álcool ajuda as substâncias tóxicas do cigarro, e também de vapes, a penetrar nas mucosas.

Nesse caso, os riscos não apenas se somam, eles se multiplicam. Quem bebe e fuma tem risco de câncer de boca, faringe e laringe muito maior do que quem só tem um dos hábitos. O Instituto Nacional de Câncer (INCA) aponta a combinação entre os principais fatores de risco para tumores de cabeça e pescoço.

Mitos que ainda circulam

"Vinho tinto protege." O vinho tem resveratrol, um antioxidante estudado em laboratório. Mas a quantidade em uma taça é pequena demais para compensar o efeito do álcool. Para o risco de câncer, não importa o tipo de bebida.

"Destilado é pior que cerveja." O que causa o dano é o etanol, o álcool presente em todas as bebidas. Uma lata de cerveja (350 ml), uma taça de vinho (150 ml) e uma dose de destilado (45 ml) têm quantidades parecidas de álcool puro.

"Se eu não fico bêbado, não faz mal." O dano às células acontece mesmo sem embriaguez. Beber pouco todos os dias pode somar mais álcool no mês do que um exagero ocasional.

Muita gente não sabe

Nos Estados Unidos, uma pesquisa de 2019 mostrou que menos da metade dos adultos sabia que o álcool causa câncer. Em 2023, mais de 224 milhões de americanos com 12 anos ou mais já tinham bebido alguma vez na vida, cerca de 79% dessa faixa etária. Foi essa falta de informação que levou o cirurgião-geral a pedir alertas sobre câncer nos rótulos das bebidas.

No Brasil, o cenário também preocupa. Segundo o Vigitel, do Ministério da Saúde, cerca de um em cada cinco adultos das capitais bebe de forma abusiva. O levantamento considera abusivo tomar quatro doses ou mais (mulheres) ou cinco ou mais (homens) em uma mesma ocasião.

Reduzir já faz diferença

A boa notícia é que o risco cai quando a pessoa diminui ou para de beber. Uma avaliação recente da IARC concluiu que isso reduz o risco de câncer de boca e de esôfago. Para outros tipos de câncer, as evidências ainda são limitadas. A queda do risco é gradual e leva anos, mas começa assim que o consumo diminui.

Para quem quer reduzir, algumas estratégias ajudam:

  • ter dias da semana sem álcool;
  • alternar a bebida com água;
  • preferir bebidas sem álcool em encontros sociais;
  • prestar atenção ao tamanho real das doses servidas em casa.

Quem sente dificuldade em controlar o consumo pode buscar ajuda gratuita no SUS. As Unidades Básicas de Saúde e os CAPS AD (Centros de Atenção Psicossocial para álcool e drogas) atendem esses casos.

Fontes consultadas

  • U.S. Surgeon General: Alcohol and Cancer Risk, alerta oficial publicado em janeiro de 2025
  • Organização Mundial da Saúde, Escritório Regional da Europa: declaração sobre ausência de nível seguro de consumo de álcool (The Lancet Public Health, 2023)
  • IARC/OMS: lista de agentes classificados e monografias sobre bebidas alcoólicas
  • Rumgay H. et al. Global burden of cancer in 2020 attributable to alcohol consumption, The Lancet Oncology, 2021
  • U.S. National Toxicology Program: Report on Carcinogens
  • Instituto Nacional de Câncer (INCA) e Ministério da Saúde (Vigitel)

Este conteúdo tem finalidade educativa. Ele não substitui a orientação de um médico, que pode avaliar o seu risco individual de câncer e indicar os exames de rastreamento adequados para a sua idade e histórico.

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