É infarto ou só gases? O detalhe mortal na dor no peito que você nunca deve ignorar


É comum sentir pressão no peito depois de uma refeição pesada e pensar que é só gases. Na maioria das vezes é mesmo, mas nem sempre. Um infarto pode começar exatamente assim: com queimação, sensação de estufamento e um desconforto que parece indigestão.

"Nem sempre é possível fazer essa diferenciação em casa, e esse é um ponto importante", afirma o cardiologista Vagner Vinicius Ferreira, do Hospital Mantevida. Por isso, na dúvida, a pessoa deve buscar atendimento.

Por que o corpo confunde os sinais

O coração, o esôfago e o estômago ficam muito próximos e compartilham parte das vias nervosas que levam a dor até o cérebro. Por isso, o cérebro nem sempre consegue apontar com precisão de onde vem o desconforto. Uma dor que nasce no coração pode ser sentida na "boca do estômago". Um refluxo forte, por sua vez, pode parecer um aperto cardíaco.

Pistas que ajudam, mas não resolvem

Algumas características costumam indicar mais um problema do que outro. Nenhuma delas, sozinha, descarta um infarto.

Mais comuns no infarto:

  • pressão, aperto ou peso no centro ou no lado esquerdo do peito;
  • dor que dura vários minutos, ou que melhora e volta;
  • dor que se espalha para um ou os dois braços, as costas, o pescoço, a mandíbula ou a região do estômago;
  • falta de ar, suor frio, náusea, tontura, palidez ou palpitações ao mesmo tempo.

Mais comuns nos gases:

  • estufamento na barriga;
  • arrotos ou eliminação de gases que trazem alívio;
  • relação clara com a refeição.

Segundo Vagner, a combinação de dor no peito com falta de ar, suor frio, náusea ou desmaio "deve ser encarada como um sinal de alerta para uma possível síndrome coronariana aguda". Síndrome coronariana aguda é o nome médico que inclui o infarto e a angina instável, situações em que falta sangue para o músculo do coração.

Outro ponto costuma enganar: a intensidade da dor. "A intensidade não define a gravidade", alerta o cardiologista. Um infarto pode começar com um incômodo discreto.

Quando o infarto não parece infarto

Em alguns grupos, os sintomas fogem do quadro clássico com mais frequência:

  • Mulheres: muitas vezes sentem cansaço intenso, falta de ar, náusea, dor nas costas ou na mandíbula, sem a dor forte no peito que se espera.
  • Pessoas com diabetes: o diabetes pode danificar os nervos que levam a sensação de dor. Por isso, o infarto às vezes causa pouca dor ou apenas mal-estar e falta de ar.
  • Idosos: podem ter apenas fraqueza, confusão mental ou desmaio.

A atenção também precisa ser maior para quem tem fatores de risco:

  • pressão alta;
  • colesterol alto;
  • tabagismo;
  • obesidade;
  • sedentarismo;
  • histórico de doença cardíaca na família.

"Diante de uma dor nova ou diferente do habitual, principalmente em uma pessoa com fatores de risco cardiovascular, é mais seguro considerar a possibilidade de um problema cardíaco e buscar avaliação", reforça Vagner.

Outras emergências que também causam dor no peito

Nem toda dor torácica grave vem do coração entupido. Duas condições exigem socorro imediato:

  • Dissecção da aorta: dor súbita, muito forte, descrita como "rasgando", que costuma ir para as costas.
  • Embolia pulmonar: falta de ar repentina, dor que piora ao respirar e, às vezes, tosse com sangue.

Nos dois casos, a regra é a mesma do infarto: não esperar.

O que fazer nos primeiros minutos

"Na dúvida, não espere a dor passar para descobrir se são gases", orienta o cardiologista. Na prática:

  1. Ligue 192 (SAMU). A equipe pode fazer um eletrocardiograma ainda na ambulância e já levar o paciente ao hospital certo, com estrutura para desentupir a artéria.
  2. Não vá dirigindo. Se a situação piorar no caminho, você coloca em risco a sua vida e a de outras pessoas. Se não for possível chamar o SAMU, peça para alguém levar você ao pronto-socorro mais próximo.
  3. Não fique testando remédios para gases. Tomar um antiácido e esperar para ver se melhora é justamente o que atrasa o atendimento.
  4. AAS, só com orientação. O ácido acetilsalicílico mastigado faz parte do tratamento inicial do infarto. Ele só deve ser tomado se o médico regulador do SAMU orientar, e nunca por quem tem alergia, sangramento ativo ou contraindicação conhecida.
  5. Fique em repouso e afrouxe roupas apertadas enquanto espera o socorro.

A pressa tem motivo. No infarto, uma artéria do coração fica bloqueada, e cada minuto sem sangue destrói mais músculo cardíaco. Os cardiologistas resumem isso na frase "tempo é músculo". Quanto mais cedo a artéria é desbloqueada, com remédio ou angioplastia, menor é a sequela e maior a chance de sobreviver.

Segundo o Ministério da Saúde, o infarto está entre as principais causas de morte no país, e muitas dessas mortes acontecem antes de o paciente chegar ao hospital.

O que acontece no pronto-socorro

Quem chega com dor no peito deve fazer um eletrocardiograma em poucos minutos. As diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia recomendam que o exame seja feito em até 10 minutos após a chegada.

Em seguida, costuma ser colhido sangue para dosar a troponina, proteína liberada quando o músculo do coração sofre lesão. O exame pode ser repetido algumas horas depois.

Se tudo vier normal e for só gases, ótimo: a pessoa volta para casa tranquila. Ir ao hospital e descobrir que era indigestão nunca é um exagero.


Fontes consultadas

  • Entrevista do cardiologista Vagner Vinicius Ferreira (Hospital Mantevida), conforme o material-base
  • Ministério da Saúde: infarto agudo do miocárdio
  • Sociedade Brasileira de Cardiologia: diretrizes sobre síndromes coronarianas agudas
  • American Heart Association: sinais de alerta de infarto e diferenças nos sintomas em mulheres

Este conteúdo informa, mas não diagnostica. Dor no peito sempre merece avaliação médica, e a decisão sobre qualquer medicamento em uma emergência deve vir da equipe de saúde. Em caso de suspeita de infarto, ligue 192.

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