Dados divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que o empresário gaúcho Erasmo Carlos Battistella, fundador e CEO da Be8 — maior produtora de biodiesel do Brasil —, fez duas doações de R$ 500 mil cada para a corrida presidencial de 2026: uma para a campanha de reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e outra para a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL). As contribuições, feitas como pessoa física, colocam Battistella entre os maiores doadores individuais já registrados nesta eleição.

Quem é Erasmo Battistella

Conhecido no setor como "Rei do Biodiesel", Battistella fundou em 2005, no Rio Grande do Sul, a empresa que hoje é a Be8 — nome adotado em 2023, quando a companhia ainda se chamava BSBIOS. O grupo é controlado pela holding ECB Group, também fundada pelo empresário, com atuação em agronegócio e energias renováveis, e teve faturamento de R$ 10 bilhões em 2025, com seis unidades industriais no Brasil, uma no Paraguai e uma na Suíça.

Battistella integra o Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável, o chamado "Conselhão", recriado pelo governo federal em 2023, e já apresentou a Lula propostas de um grupo de trabalho do colegiado voltado à transição energética. Ele também ocupou a presidência do conselho de administração da Associação dos Produtores de Biocombustíveis do Brasil (Aprobio) até 2021 e segue como diretor da entidade — em nome dela, discursou em junho de 2025 na cerimônia em que o governo elevou o percentual mínimo de biodiesel misturado ao diesel para 15%, antecipando em oito meses o cronograma original.

O histórico com a Petrobras

A relação de Battistella com o setor público de energia não é nova. Em 2011, a Petrobras Biocombustível comprou 50% da BSBIOS por R$ 200 milhões. Dez anos depois, em 2021, o ECB Group recomprou essa fatia da estatal por cerca de R$ 322 milhões, retomando o controle integral da empresa.

Doações a lados opostos e o contexto da arrecadação

O caso chamou atenção justamente por reunir, na mesma pessoa, apoio financeiro a candidatos de campos políticos opostos — uma prática pouco comum entre grandes doadores, mas não vedada pela legislação eleitoral, desde que respeitados os limites individuais de doação por pessoa física.

Segundo balanço de arrecadação até a segunda-feira (7), Lula havia recebido R$ 660 mil em doações de pessoas físicas, valor inferior aos R$ 1,46 milhão contabilizados pela campanha de Flávio Bolsonaro. Entre outros nomes que aparecem na lista de doadores estão a professora Mayra Cristina da Luz Pádua Guimarães, que destinou R$ 40 mil ao petista, e Alexandre Chequer, executivo global da Mayer Brown Energy radicado nos Estados Unidos, que contribuiu com R$ 120 mil para o lado bolsonarista. Em outra frente de financiamento, a das vaquinhas eletorais online, o candidato Renan Santos (Missão) lidera a arrecadação, com R$ 1,78 milhão vindos de mais de 27 mil doadores.

O que diz a assessoria de Battistella

Após a repercussão do caso — divulgado inicialmente pela coluna Grande Angular, do Metrópoles —, a assessoria de imprensa de Battistella confirmou as doações e afirmou que foram realizadas "dentro dos limites estabelecidos pela legislação eleitoral brasileira". A nota acrescenta que o empresário reafirma compromisso com práticas de governança, integridade e transparência.

Por que isso importa

Doações eleitorais de pessoas físicas são públicas e ficam registradas no sistema do TSE, o que permite acompanhar quem financia cada candidatura e em que volume. Casos como o de Battistella — que soma interesses diretos em políticas de biocombustíveis a contribuições para nomes de espectros políticos diferentes — costumam ser lidos como estratégia de manter proximidade com o próximo governo, seja qual for o resultado das urnas, embora não haja, até o momento, qualquer indício de irregularidade nas doações.