A doença avança devagar e costuma ser confundida com "tosse de fumante" ou falta de preparo físico. Um exame de sopro simples confirma o diagnóstico, e parar de fumar continua sendo a medida que mais protege o pulmão.
Precisar parar no meio da escada para recuperar o fôlego, pigarrear toda manhã ou ouvir um chiado no peito ao deitar costuma ser atribuído à idade, ao cigarro ou ao sedentarismo. Mas quando esses sinais se repetem por meses, eles podem indicar a doença pulmonar obstrutiva crônica, a DPOC.
A doença é comum e subdiagnosticada. Segundo a Organização Mundial da Saúde, a DPOC é a quarta maior causa de morte no mundo. Foram cerca de 3,5 milhões de óbitos em 2021.
No Brasil, o estudo PLATINO avaliou adultos com mais de 40 anos na Grande São Paulo e encontrou a doença em cerca de 15% deles. A grande maioria não sabia que tinha DPOC.
O que acontece dentro do pulmão
"Obstrutiva" quer dizer que o ar tem dificuldade para sair dos pulmões. Com o tempo, a pessoa não consegue esvaziá-los por completo, e o fôlego diminui.
A DPOC reúne dois processos que costumam aparecer juntos:
- Bronquite crônica: os brônquios, tubos que levam o ar aos pulmões, ficam inflamados e produzem catarro em excesso. Os médicos consideram bronquite crônica quando há tosse com catarro por pelo menos três meses no ano, durante dois anos seguidos.
- Enfisema: as pequenas bolsas de ar dos pulmões, os alvéolos, são destruídas e perdem a elasticidade.
A revisão sobre DPOC publicada na revista The Lancet descreve tosse crônica, catarro e falta de ar progressiva como os sinais mais típicos da doença. Eles aparecem principalmente em quem ficou exposto por muitos anos à fumaça do cigarro.
Os sinais que costumam ser ignorados
A DPOC começa de forma discreta. Muita gente só percebe os sintomas quando já perdeu boa parte da função pulmonar. Os mais comuns são:
- tosse que não vai embora, geralmente com catarro, pior pela manhã;
- falta de ar em esforços que antes eram fáceis, como subir escadas, carregar compras ou caminhar mais rápido;
- chiado ou aperto no peito;
- gripes e bronquites que se repetem e demoram a passar.
Uma pista importante é a pessoa começar a evitar esforços sem perceber. Em vez de admitir a falta de ar, ela passa a pegar o elevador, andar mais devagar ou deixar de sair. A doença fica escondida atrás desses ajustes.
Tosse de fumante não é normal
O cigarro é a principal causa de DPOC. Por isso, a tosse de quem fuma não deve ser vista como algo inevitável: ela já é um sinal de que os brônquios estão sofrendo.
Quem parou de fumar também pode desenvolver a doença. O dano acumulado durante anos não desaparece de uma hora para outra.
Não é só o cigarro
Existem outras causas importantes, e muitas vezes esquecidas:
- Fumaça de fogão a lenha. No Brasil, sobretudo na zona rural, muitas mulheres passaram décadas cozinhando em ambientes fechados com lenha ou carvão. Essa fumaça também causa DPOC, mesmo em quem nunca fumou.
- Poeira e produtos químicos no trabalho. Estão expostos trabalhadores de mineração, construção, pedreiras e casas de farinha.
- Poluição do ar e fumaça de queimadas.
- Fatores genéticos. O mais conhecido é a deficiência de alfa-1 antitripsina, uma alteração hereditária que pode causar enfisema em pessoas jovens.
O cigarro eletrônico também preocupa. A venda é proibida no Brasil pela Anvisa, e os estudos sobre seus efeitos no pulmão a longo prazo ainda estão em andamento.
Outras doenças que precisam ser descartadas
Tosse com catarro e falta de ar também aparecem em outras condições. Entre elas estão asma, bronquiectasia (dilatação permanente dos brônquios) e até insuficiência cardíaca.
No Brasil, há um cuidado a mais: o Ministério da Saúde orienta que toda pessoa com tosse por três semanas ou mais seja investigada para tuberculose. O exame de escarro é gratuito nas Unidades Básicas de Saúde.
Espirometria: o exame que confirma
O diagnóstico de DPOC é feito com a espirometria, conhecida como "exame do sopro". A pessoa enche o pulmão ao máximo e sopra com força em um aparelho, que mede quanto ar sai e com que velocidade. Depois, o teste é repetido após o uso de uma bombinha broncodilatadora, remédio que abre os brônquios.
Se a obstrução continua mesmo depois da bombinha, o diagnóstico é confirmado. Essa é a regra da GOLD, iniciativa internacional que define os critérios da doença. O exame é rápido, não dói e está disponível pelo SUS com encaminhamento da unidade de saúde.
O que faz diferença no tratamento
A DPOC não tem cura. Com tratamento, porém, é possível respirar melhor, ter menos crises e viver mais.
- Parar de fumar. É a única medida comprovada que reduz a velocidade de perda da função pulmonar. O SUS oferece tratamento gratuito, com acompanhamento e remédios como adesivos e gomas de nicotina, pelo Programa Nacional de Controle do Tabagismo do INCA. Informe-se na UBS mais próxima ou pelo Disque Saúde 136.
- Bombinhas broncodilatadoras. São o tratamento principal e ajudam a abrir os brônquios. A técnica de uso importa: muita gente usa errado e acha que o remédio não funciona.
- Vacinas. A gripe e as infecções por pneumococo são grandes causas de crises. As vacinas contra gripe e pneumonia pneumocócica estão disponíveis no SUS para pessoas com doenças crônicas.
- Reabilitação pulmonar. É um programa de exercícios supervisionados que melhora o fôlego e a disposição.
Quando a respiração piora de repente
Quem já tem DPOC pode passar por crises, chamadas de exacerbações. Os sinais mais comuns são:
- mais falta de ar do que o habitual;
- mais catarro;
- catarro que muda de cor, ficando mais amarelado ou esverdeado.
Nesses casos, procure atendimento sem demora. Para qualquer pessoa, com ou sem diagnóstico, vá ao pronto-socorro imediatamente se houver:
- falta de ar intensa, mesmo em repouso;
- lábios ou pontas dos dedos arroxeados;
- confusão mental ou sonolência fora do comum;
- dor no peito.
Pessoas com fatores de risco e sintomas persistentes, mesmo leves, devem conversar com o médico da unidade de saúde. A orientação também vale para ex-fumantes e para quem cozinhou por muitos anos com lenha. Descobrir a doença cedo permite preservar o fôlego que ainda resta.
Fontes consultadas
- Organização Mundial da Saúde: dados sobre doença pulmonar obstrutiva crônica
- GOLD (Global Initiative for Chronic Obstructive Lung Disease): relatório de diagnóstico e manejo da DPOC
- Revisão Chronic obstructive pulmonary disease, revista The Lancet
- NHLBI (Instituto Nacional do Coração, Pulmão e Sangue dos EUA): sintomas e diagnóstico da DPOC
- Estudo PLATINO: prevalência de DPOC em São Paulo
- Ministério da Saúde e INCA: tuberculose e Programa Nacional de Controle do Tabagismo
Este texto é informativo e não permite diagnosticar DPOC ou qualquer outra doença respiratória. Se você tem tosse persistente, catarro frequente ou falta de ar, procure uma avaliação médica, que pode incluir a espirometria.
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