Sangramento depois da menopausa é o principal alerta do câncer de endométrio, que tem mais casos no Brasil que o de ovário. Conheça os fatores de risco, o papel da genética e por que o Papanicolau não detecta esses tumores.
O câncer do corpo do útero raramente aparece nas conversas sobre saúde da mulher, mas tem mais casos no país que o de ovário. O Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 9.650 novos casos por ano entre 2026 e 2028. Para o câncer de ovário, a projeção é de 8.020.
A maior parte dos tumores do corpo do útero começa no endométrio, a camada que reveste o útero por dentro e descama na menstruação. Diferente do câncer de ovário, que costuma dar sinais vagos, o de endométrio tem um alerta claro. Reconhecer esse sinal é o que mais aumenta a chance de diagnóstico precoce.
O Setembro em Flor, campanha de conscientização sobre os cânceres ginecológicos (colo do útero, ovário, endométrio, vagina e vulva), é um bom momento para entender essas diferenças.
Sangramento após a menopausa nunca é "normal"
Depois que a menstruação para de vez, qualquer sangramento vaginal precisa ser investigado, mesmo que seja pouco, uma mancha na calcinha ou um episódio isolado.
Na maioria das vezes, a causa é benigna, como afinamento da mucosa, pólipos ou efeito de reposição hormonal. Mas o sangramento é também o principal sintoma do câncer de endométrio. Como a doença costuma dar esse sinal cedo, muitos casos são descobertos ainda no início, quando o tratamento tem melhores resultados.
Antes da menopausa, o alerta vale para sangramentos fora do período menstrual, após a relação sexual ou menstruações muito mais intensas que o habitual, principalmente depois dos 40 anos.
A investigação geralmente começa com um ultrassom transvaginal, que mede a espessura do endométrio. Se houver alteração, o médico pode pedir biópsia ou histeroscopia, exame em que uma pequena câmera avalia o interior do útero.
Quem tem mais risco de câncer de endométrio
O câncer de endométrio ocorre principalmente depois da menopausa, e boa parte dos fatores de risco tem a ver com exposição prolongada ao estrogênio sem o equilíbrio da progesterona:
- Obesidade: é um dos fatores mais importantes, porque o tecido de gordura produz estrogênio, mesmo após a menopausa.
- Diabetes e síndrome dos ovários policísticos (SOP).
- Reposição hormonal só com estrogênio, em mulheres que têm útero.
- Primeira menstruação cedo ou menopausa tardia, e nunca ter engravidado.
- Uso de tamoxifeno, medicamento usado no tratamento do câncer de mama. Por isso, quem usa precisa relatar qualquer sangramento.
- Síndrome de Lynch, uma condição hereditária que aumenta o risco de câncer de endométrio e também de câncer colorretal.
Manter o peso adequado e controlar o diabetes estão entre as poucas formas de reduzir o risco que dependem de hábitos.
Câncer de ovário: o que a genética diz, e o que não diz
No câncer de ovário, a genética tem peso maior. Os genes BRCA1 e BRCA2 participam do reparo do DNA, e alterações herdadas neles elevam bastante o risco.
Os números do National Cancer Institute (NCI), dos Estados Unidos, mostram a dimensão disso:
| Grupo | Risco de câncer de ovário ao longo da vida |
|---|---|
| População geral | cerca de 1,1% |
| Com variante prejudicial em BRCA2 | 13% a 29% |
| Com variante prejudicial em BRCA1 | 39% a 58% |
Ter a alteração, portanto, não é uma sentença: muitas portadoras nunca terão a doença. Por outro lado, o risco é muito maior que o da média, e isso muda o acompanhamento. A indicação de teste genético deve ser feita por profissionais capacitados, com aconselhamento genético antes e depois do resultado.
Uma curiosidade pouco conhecida é que o anticoncepcional oral está associado a menor risco de câncer de ovário. Segundo o NCI, mulheres que já usaram a pílula têm risco de 30% a 50% menor, e a proteção tende a ser maior quanto mais longo o uso. Esse dado vem de estudos observacionais e não é motivo para tomar anticoncepcional como forma de prevenção. A escolha do método continua sendo individual.
Os sinais do câncer de ovário costumam ser vagos, como inchaço abdominal persistente e sensação de estar cheia rapidamente. Explicamos esses sintomas em detalhe em outra matéria (link para o artigo 22).
O Papanicolau não detecta câncer de ovário nem de endométrio
Esse é um equívoco comum. O exame preventivo, o Papanicolau, foi criado para rastrear o câncer do colo do útero e as lesões causadas pelo HPV. Ele não é feito para encontrar tumores no ovário nem no endométrio.
Hoje não existe exame de rastreamento recomendado para toda a população nesses dois casos. Ultrassom e exames de sangue feitos de rotina em mulheres sem sintomas não mostraram redução de mortes por câncer de ovário nos grandes estudos. Por isso, prestar atenção aos sintomas e informar o histórico familiar ao ginecologista são as principais ferramentas.
Mulheres com alto risco genético, como portadoras de BRCA ou da síndrome de Lynch, têm acompanhamento diferenciado, definido com o especialista.
O que mudou no tratamento
Cirurgia e quimioterapia continuam essenciais em muitos casos. Mas os últimos anos trouxeram mudanças importantes, principalmente porque os médicos passaram a olhar as características moleculares de cada tumor.
No câncer de ovário, os inibidores de PARP são remédios que atacam células tumorais com falhas no reparo do DNA. Eles são usados em situações específicas, principalmente como tratamento de manutenção depois da quimioterapia. Pacientes com alterações em BRCA costumam ter maior benefício, e por isso a análise genética do tumor passou a orientar o tratamento.
No câncer de endométrio, a principal novidade é a classificação molecular. O tumor passou a ser dividido em grupos conforme alterações genéticas, e esses grupos ajudam a prever o comportamento da doença e a decidir se a paciente precisa de tratamento complementar após a cirurgia.
A imunoterapia, que estimula o sistema de defesa do corpo a combater o câncer, também ganhou espaço. Estudos publicados em 2023 mostraram benefício ao associá-la à quimioterapia em casos avançados ou que voltaram, especialmente em tumores com uma alteração chamada deficiência de reparo de erros do DNA (dMMR).
Essas opções dependem do tipo de tumor, do estágio e da disponibilidade em cada serviço de saúde.
Conscientização começa no consultório
Para a oncologista Maria Del Pilar Estevez Diz, do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), informação ajuda a encurtar o caminho até o diagnóstico. "A conscientização é uma ferramenta importante para reduzir barreiras na jornada das pacientes", afirma. Ela reforça que cada caso precisa ser avaliado individualmente.
Na prática, isso significa:
- não adiar a consulta se houver sangramento após a menopausa;
- contar ao médico sobre casos de câncer de mama, ovário, útero e intestino na família;
- procurar avaliação se sintomas abdominais ou pélvicos persistirem por semanas;
- manter as consultas ginecológicas de rotina, mesmo sabendo que o Papanicolau não cobre tudo.
A Febrasgo, federação que reúne os ginecologistas e obstetras do país, e o INCA mantêm materiais de orientação sobre os cânceres ginecológicos.
Fontes consultadas
- Instituto Nacional de Câncer (INCA), estimativa de incidência de câncer no Brasil para 2026–2028
- National Cancer Institute (NCI/EUA), informações sobre câncer de ovário, anticoncepcionais orais e genes BRCA1/BRCA2 — cancer.gov
- Declarações da oncologista Maria Del Pilar Estevez Diz, Icesp (texto-base)
- Febrasgo, conteúdos sobre câncer ginecológico
- Estudos RUBY e NRG-GY018 (2023), sobre imunoterapia no câncer de endométrio avançado
Matéria com fins informativos. Sintomas, riscos e tratamentos devem ser avaliados individualmente por um médico.
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