Sentir que o alimento "não desce" de vez em quando pode ser só pressa. Mas quando o sintoma se repete, piora ou vem com engasgos, ele precisa ser investigado, e o lugar onde a comida parece travar ajuda a descobrir a causa.
Quase todo mundo já sentiu um pedaço de pão ou de carne "parado" no meio do caminho. Quando isso acontece com frequência, há um nome médico para o sintoma: disfagia, que significa dificuldade para engolir.
A disfagia não é uma doença em si, e sim um sinal de que algo atrapalha o caminho da comida entre a boca e o estômago. Esse caminho depende de mais de 30 músculos e de vários nervos trabalhando de forma coordenada. Se uma parte falha, o alimento demora a descer, fica preso ou volta.
Segundo o serviço público de saúde do Reino Unido (NHS), o problema pode causar sensação de comida presa na garganta ou no peito, tosse ou engasgo ao comer e dificuldade para engolir alimentos, líquidos ou até a própria saliva.
Garganta ou peito: onde a comida para faz diferença
Os médicos dividem a disfagia em dois tipos principais, e a própria pessoa costuma perceber a diferença.
Na garganta (disfagia orofaríngea). A dificuldade aparece logo no começo da deglutição. A pessoa tosse ou engasga ao engolir, a voz fica "molhada" depois de comer e, às vezes, o líquido volta pelo nariz. Esse tipo costuma estar ligado a problemas nos nervos e nos músculos. Aparece com mais frequência:
- depois de um AVC;
- em pessoas com Parkinson, Alzheimer ou outras doenças neurológicas;
- em idosos, porque a força da deglutição diminui com a idade.
Atrás do peito (disfagia esofágica). A pessoa engole normalmente, mas alguns segundos depois sente que o alimento parou no meio do peito. Nesse caso, o problema está no esôfago, o tubo que leva a comida até o estômago.
Sólidos, líquidos ou os dois
Outra pista importante é o tipo de alimento que causa dificuldade:
- Só sólidos, piorando aos poucos: sugere um estreitamento do esôfago, que pode ser causado por uma cicatriz de refluxo antigo ou, em casos mais sérios, por um tumor.
- Só sólidos, de vez em quando: pode ser um anel no esôfago ou uma inflamação que vai e volta.
- Sólidos e líquidos desde o início: aponta mais para um problema nos movimentos do esôfago do que para algo que esteja fechando a passagem.
Causas que valem conhecer
Refluxo. Com o tempo, o ácido do estômago pode inflamar e estreitar o esôfago.
Esofagite eosinofílica. É uma inflamação de origem alérgica que afeta com mais frequência homens jovens, muitas vezes com rinite, asma ou alergias alimentares. Pedaços de carne que "entalam" e precisam ser retirados no hospital são um sinal típico.
Acalasia e doença de Chagas. Na acalasia, o músculo no fim do esôfago não relaxa como deveria, e a comida fica parada. No Brasil, uma causa importante de quadro parecido é a doença de Chagas. O parasita da doença pode destruir os nervos do esôfago e provocar o megaesôfago, um esôfago dilatado que não empurra o alimento. A doença pode ficar silenciosa por décadas antes de dar sinais. Por isso, quem morou em área rural com barbeiro deve contar esse histórico ao médico.
Comprimidos que machucam o esôfago. Alguns remédios irritam o esôfago se ficarem presos no caminho. Entre eles estão certos antibióticos, como a doxiciclina, remédios para osteoporose, anti-inflamatórios e suplementos de potássio. Para evitar o problema:
- tome esses comprimidos com um copo cheio de água;
- fique sentado ou em pé ao tomar;
- não se deite logo depois.
Câncer de esôfago. É menos comum, mas deve ser investigado quando a dificuldade para engolir é progressiva e vem acompanhada de perda de peso. Segundo o INCA, os principais fatores de risco são:
- cigarro;
- álcool;
- consumo frequente de bebidas muito quentes, como chimarrão e chá escaldante.
Quando não é dificuldade para engolir
Algumas pessoas sentem um "bolo" ou aperto na garganta que não atrapalha a passagem da comida. Muitas vezes, esse incômodo até melhora durante as refeições. Esse quadro se chama globus faríngeo e costuma estar ligado a refluxo, tensão muscular ou ansiedade.
O globus geralmente não é grave. Mesmo assim, a avaliação médica ajuda a separar um problema do outro.
O risco que nem sempre aparece: a aspiração
O principal perigo da disfagia é a aspiração: quando comida, líquido ou saliva entram nas vias respiratórias em vez de seguirem para o estômago. Uma revisão publicada na revista Gastroenterology Research and Practice (disponível no PubMed) mostra que a disfagia orofaríngea favorece:
- aspiração;
- pneumonia;
- desnutrição;
- desidratação.
Em idosos, a aspiração pode ser silenciosa, sem tosse nenhuma. O primeiro sinal pode ser uma pneumonia que volta várias vezes.
Como o problema é investigado
A escolha do exame depende do tipo de disfagia:
- Fonoaudiólogo: avalia como a pessoa engole diferentes texturas e costuma ser o primeiro profissional nos casos de disfagia na garganta.
- Videodeglutograma e videoendoscopia da deglutição: mostram em imagem, em tempo real, para onde o alimento vai.
- Endoscopia digestiva alta: olha o interior do esôfago e permite colher biópsias.
- Esofagograma e manometria: o primeiro é um raio X com contraste; o segundo mede a força dos movimentos do esôfago.
Cuidados à mesa até a consulta
Enquanto a avaliação não acontece, algumas medidas deixam a refeição mais segura. Elas valem apenas para quem consegue engolir e respirar bem:
- coma sentado, com a coluna ereta;
- faça mordidas pequenas e mastigue bem;
- evite conversar, ver TV ou mexer no celular enquanto engole;
- espere pelo menos 30 minutos antes de se deitar;
- não mude a consistência da comida por conta própria, principalmente para idosos ou pessoas com doença neurológica. O fonoaudiólogo é quem indica a textura adequada.
Quando é urgente
Procure avaliação médica em breve se houver:
- engasgos frequentes;
- perda de peso sem explicação;
- dor ao engolir;
- pneumonias repetidas;
- dificuldade que piora semana a semana;
- sintoma que começou de repente, principalmente depois de AVC, cirurgia ou trauma.
Vá ao pronto-socorro imediatamente se:
- não conseguir engolir nem a própria saliva;
- sentir que o alimento ficou preso e não desce.
Nesses casos, não force vômito nem tente empurrar a comida com mais alimento.
Se a pessoa estiver sufocando, com lábios arroxeados e sem conseguir falar ou tossir, ligue 192 e, se souber, faça a manobra de Heimlich: por trás da pessoa, com as mãos unidas acima do umbigo, faça compressões rápidas para dentro e para cima.
Fontes consultadas
- NHS (serviço público de saúde do Reino Unido): disfagia, sintomas e causas
- Revisão sobre disfagia orofaríngea, fisiopatologia e complicações, Gastroenterology Research and Practice (PubMed)
- Instituto Nacional de Câncer (INCA): câncer de esôfago e fatores de risco
- Ministério da Saúde: doença de Chagas
- American College of Gastroenterology: orientações sobre disfagia e esofagite eosinofílica
As informações deste artigo servem para orientar, mas não substituem a consulta com médico ou fonoaudiólogo. Só a avaliação profissional pode identificar a causa da dificuldade para engolir e indicar o tratamento adequado.
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